Fragmentos de uma encruzilhada é uma produção independente criada pelo grupo de dança paulistano Fragmento Urbano para contar a sua própria história.
T E X T O  &  I M A G E N S   
H A N N A H  U E S U G I
E N C R U Z I L H A D A S

Eu não conhecia o Fragmento Urbano até ser procurada pela Fernanda Cruz via mini editora para publicar o livro do grupo. Não sabia do que se tratava, o que eles dançavam, sobre o que haviam escrito, qual seria a qualidade do material que eu teria para trabalhar, mas me interessei justamente por esse mistério de adentrar num universo ainda desconhecido e que esbarrou em mim de forma misteriosa pelas encruzilhadas do mundo editorial independente.

A Fernanda já tinha o material quase todo pronto em processo de revisão — textos de dez autores e registros de doze fotógrafos —  quando nos enviou tudo para análise. O projeto teve financiamento do 23º edital de fomento à dança para a cidade de São Paulo e por causa dele havia um prazo restrito para a impressão dos livros, por uma questão de prestação de contas. Talvez em outras circunstâncias nós não nos arriscaríamos a entrar num projeto tão grande com tão pouco tempo, mas nós ainda não sabíamos que o projeto era tão grande — em quantidade de trabalho e no melhor sentido da palavra — e topamos. Ainda bem.

O  P R O J E T O

18 textos — entre cartas, relatos, entrevistas, textos acadêmicos e linhas poéticas —, 46 fotografias e nenhuma indicação de relação entre as partes. Não fossem palavras tão intensas e fotos tão inspiradoras, talvez nós sentíssemos extrema dificuldade em desenhar esse projeto gráfico. Mas os relatos daqueles dez dançarinos falando sobre as dificuldades e alegrias de colocar seus corpos para dançar nas ruas da cidade eram tão contagiantes que o livro nasceu de forma fluida e ritmada, embalado ainda mais pela grata surpresa de ter belíssimas imagens nos aguardando na pasta "fotos".

A ideia era imprimir o maior número possível de exemplares com a verba que eles ainda tinham do edital e, por isso, a nossa primeira decisão disse respeito à redução dos custos de acabamento do livro. Diante daquelas fotografias, seria impensável abrir mão das cores do miolo, então trabalhamos com outras economias: formato convencional com bom aproveitamento de papel e nenhuma capa.

A cor vermelha surgiu logo no começo, muito pelo que ela representa como símbolo de luta e resistência, mas também pelo contraste que ela oferece tanto em relação às cores claras quanto às escuras. Nós precisávamos dessa característica técnica, uma vez que a sobreposição de texto e imagem era uma premissa fundamental na construção desse livro.

A nossa intenção era criar duas camadas independentes que percorreriam as páginas do miolo: a de texto e a de imagem, uma ilustrando a outra quando fosse conveniente, mas quase como se uma não se deixasse interferir pela presença da outra na diagramação da página.

Os títulos e os nomes dos autores têm muita força e são compostos em corpos grandes na Sharp Grotesk. Já o texto em si é blocado na serifada Ivar Text, ora em branco ora em vermelho, de forma alternada.

V A R I A Ç Õ E S

Além dessa variação cromática entre texto branco em página vermelha e texto vermelho em página branca, nós propusemos ainda uma outra variação: a de sentido. A ideia era de que o leitor, ao folhear o miolo, fosse convidado a uma dança virando o livro de posição a cada novo texto. 

Portanto, há textos que são lidos na posição retrato e, outros, na posição paisagem. E as imagens não necessariamente acompanham essa orientação, podendo se acomodar de forma livre pelas duplas do miolo.

A largura da caixa de texto é constante em todos os casos: contida pelas margens interna e externa nas páginas verticais ou encostada em uma das margens laterais — esquerda ou direita — nas páginas horizontais.

Dentro dessa caixa, os títulos são sempre em bold alinhados à esquerda, os nomes dos autores em regular alinhados à direita e os textos justificados na maior parte das ocorrências.

A B R E S

A partir dessas variações de cor e orientação, dezoito abres foram desenhados e a visão geral do seu conjunto dá uma ideia da grande dança vermelha e branca resultante da definição dessas poucas mas expressivas diretrizes de projeto.

R E S U L T A D O

O livro, apesar do tamanho acanhado 15x21cm, ficou um livro grande, que fala alto e não se intimida diante dos outros gigantes sobre dança que circulam por aí.

E essa força surgiu dos próprios relatos dos dançarinos que, sem medo de encarar a dimensão que é escrever um livro, conseguiram transpirar nas palavras a força que os fotógrafos captaram nas ruas durante as suas apresentações e que nós, designers, buscamos transmutar em projeto gráfico.

Fazer esse livro existir, assumindo as suas limitações — de orçamento, prazo, técnicas — nos emociona e nos faz ter vontade de dançar. Apesar de tudo e de todos, dançar, mesmo sem saber dançar, e, também apesar de tudo, fazer livros.
F I C H A  T É C N I C A

GRUPO 
FRAGMENTO URBANO  

ORGANIZADORES 
ANELISE MAYUMI, DOUGLAS IESUS E FERNANDA CRUZ   

TEXTO 
ANELISE MAYUMI, DIEGO CASTRO, DOUGLAS IESUS, EDUARDO DIALÉTICO, FERNANDA CRUZ, JULIANA SANSO, LUAN AFONSO, LUCIANE RAMOS SILVA, RENATA LIMA E TIAGO SILVA  

REVISÃO 
ANELISE MAYUMI E FERNANDA CRUZ
   
FOTOS 
ANELISE MAYUMI, CARLOS MACHAVA, DANIEL GTR, DIEGO CASTRO, DOUGLAS IESUS, EDI BRUZACA, EDSON GODOY, FÁBIO MINAGAWA, MARCOS BACAGINI, MÔNICA CARDIM, ROGER CIPÓ E ROMERO OLIVEIRA   

PRODUÇÃO EXECUTIVA 
LENY PASSOS   

PROJETO GRÁFICO 
HANNAH UESUGI & PEDRO BOTTON  

FONTES 
SHARP GROTESK E IVAR TEXT   

FORMATO FECHADO 
15X21CM   

IMPRESSÃO 
FORMA CERTA   

MÉTODO 
DIGITAL HP ÍNDIGO 4X4 CORES   

PAPEL 
OFFSET 90G/M²   

PÁGINAS 
160   

TIRAGEM 
400 EXEMPLARES   

ANO 
2018