Canhoto é uma editora independente, de esquerda e que surgiu pra publicar bons livros.
T E X T O  &  I M A G E N S  
P E D R O  B O T T O N
C O M E Ç O

O começo da Editora Canhoto, como todo início de qualquer coisa, é difícil de definir em uma data exata. Claro que, simbolicamente, ela nasceu no dia em que lançamos nosso primeiro livro na virada do dia 24 pro dia 25 de julho de 2014 no Naïve, bar nos arredores do centro de São Paulo. Mas enquanto ideia ela nasceu bem antes.

Em setembro de 2012 o Rafael Zanatto me enviou um email contendo uma continuação pra um história que ele havia começado a contar em seu blog. A história vinha sendo contada em postagens isoladas e a partir do email algo maior já estava sendo escrito, isto é, uma narrativa mais robusta começou a acontecer e eu percebi que essa era uma chance de começar um projeto novo através de uma amizade também nova que estava se consolidando ali.

Minha relação com o design editorial também estava amadurecendo. Após passar por alguns escritórios de design gráfico e sofrer da típica frustração por não conseguir aplicar alguns conceitos da forma que gostaria a vontade de possuir um espaço em que pudesse ter liberdade de decisão sobre o resultado final era grande. Também foi um momento que, muito também pela minha aproximação com o Rafael, eu estava lendo muito e, automaticamente, frequentando muitos livros e seus diversos projetos gráficos.

Após a virada do ano para 2013, mais especificamente no dia 25 de fevereiro de 2013, o Rafael me mandou, segundo suas próprias palavras, “a penúltima parte da pior história ever told” no próprio corpo do texto do email. Ao terminar de lê-la e juntá-la com os outras partes já escritas (três postagens no blog do Rafael e dois emails) eu tive certeza que tínhamos um romance em processo. No dia 5 de março seguinte eu enviei para o Rafael um PDF  já muito próximo do que viria a ser o livro, com capa e tudo e inclusive já com o título que acabou ficando, “não foi bem assim”. Até aí a Canhoto não existia.

No dia 20 de maio de 2013 o Rafael me enviou um email com a finalíssima parte, o curto capítulo que leva o nome de “calma, mano”, último do livro. A partir daí, com o texto pronto, as coisas se acalmaram e levaram mais tempo. No intervalo entre este dia e o início do nosso contato com a gráfica para imprimir o livro a Canhoto surgiu.

P R O D U Ç Ã O

Como já havíamos decidido que iríamos publicar independentemente o livro, isto é, não enviar o original para editoras consolidadas esperando que elas aceitassem o original do livro, nós possuíamos duas opções: a primeira era publicar o livro sem editora através de uma “edição do autor”, como se diz; a segunda era que fundássemos um projeto só para lançar o livro. Mas a ideia não era só lançar um livro, era começar alguma coisa de verdade.

Nas nossas conversas não registradas em emails a ideia era fazer algo diferente do que já existia ao mesmo tempo em que nos envolveríamos em uma cena já ativa: a das editoras independentes. A Mini já estava caminhando bem e isso nos dava uma segurança de que era possível, ainda que o perfil das duas editoras fosse bem diferente. Enquanto a Mini se debruçava no processo artesanal, a Canhoto queria existir através do processo industrial — ainda que de pequena tiragem — da fatura de livros.

Nesse processo, o meu contato com a gráfica que imprimiu o TFG Dependência Doméstica — o qual elaborei o projeto gráfico junto da arquiteta Ana Teresa — também foi fundamental, pois foi através da Forma Certa que eu enxerguei que era possível fazer, através da impressão digital, livros com um bom acabamento e qualidade sem a necessidade de realizar grandes tiragens típicas do processo em offset, até pelo fato que nosso capital disponível para investir na Canhoto era absolutamente zero.

C A N H O T O

O nome da Canhoto surgiu como um resumo de muita coisa que estava na minha cabeça durante tudo isso. O contato com a obra do filósofo Vladimir Safatle, em especial com o seu livro “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome”, me fez perceber que aquele papo de que não existia mais direita nem esquerda era passado e que na verdade o pensamento e o sentimento de esquerda seguia bastante vivo. Isso era algo que tanto eu quanto o Rafael queríamos deixar claro na nossa editora.

O fato de eu ser canhoto sempre foi algo bastante definidor da minha personalidade. Ao mesmo tempo, a etimologia dessa palavra sempre me interessou muito. Um termo inicialmente pejorativo, uma forma de dizer que algo não está certo, aquilo que é torto, errado, que tem a ver com o gauche do poema de Drummond, uma palavra que se aproxima até do diabo, o canhestro, que não é direito, não tem destreza, em inglês o “goofy”, pateta, desajeitado, desajustado e que, no fim das contas mesmo, só diz respeito atualmente ao lado esquerdo do corpo me parecia forte e simples o suficiente para dizer muita coisa de uma vez só.

O Rafael gostou logo de cara, mesmo não sendo canhoto, e de certa forma essa foi a confirmação que eu precisava para acreditar que chamar a editora assim não seria como dar o nosso sobrenome pro projeto, mas sim era uma forma de se relacionar com algo maior ao mesmo tempo em que deixaríamos claro porque existimos. Sendo assim, aproveitamos o fato de que diversas vezes basta cruzar o gênero das palavras para termos uma expressão com força de marca e surgiu a Editora Canhoto.

L O G O

A partir daí — ou ao mesmo tempo, difícil dizer — o desenho da marca começou a surgir a partir de algumas premissas concomitantes mas não necessariamente nesta ordem de importância: por se tratar de uma editora, o lugar mais nobre em que ela existe é a lombada do livro, por isso ela deveria ser na vertical; ao mesmo tempo, seria interessante que ela possuísse uma aplicação horizontal; a vontade de usar uma tipografia clássica e assim tentar se afastar de algum modismo que pudesse envelhecer a marca rapidamente; um desenho de logo que fosse esquisito, não muito correto, que pudesse causar algum incômodo em quem o visse; algo exclusivamente tipográfico, isto é, sem a adição de algum signo ou símbolo muito pela ideia de que livros são feitos primordialmente de letras escritas; e, finalmente, uma marca que contivesse dentro de si a ideia de lado esquerdo de alguma forma.

A escolha da fonte foi a primeira etapa e se resolveu até que rapidamente. A Trade Gothic, desenhada pelo estadunidense Jackson Burke de 1948 até 1960 e utilizada largamente em todas as áreas do design possui nas suas versões negrito e negrito condensada aspectos como equilíbrio, harmonia e contundência num nível que poucas fontes conseguiram atingir. O fato dela ser utilizada na marca da revista Piauí, referência para a Canhoto, também influenciou um pouco.

A partir daí, a forma em que o nome da editora seria escrito na fonte escolhida é que daria o aspecto de marca ao projeto, pois a elaboração de algum símbolo já havia sido descartada inicialmente. Nesse momento, o conceito de alinhamento surge de forma semanticamente invertida mas ainda assim coerente com o projeto, pelo menos pra mim.

O alinhamento fundamental da escrita ocidental é o feito à esquerda, isto é, com a espinha do texto fixada do lado esquerdo da mancha do texto e com a escrita evoluindo para a direita até que o suporte escolhido — página do caderno, tela do celular, bloco de notas — termine e faça com se quebre a linha e retorne à espinha, muito pelo fato que assim que nós lemos e escrevemos, da direita para esquerda, direção que se inverte em algumas outras escritas, como a árabe e a japonesa.

No entanto, se imaginarmos uma escrita sem suporte, isto é, uma situação em que a quebra de linha não precisasse existir, quanto mais escrevêssemos mais iríamos para a direita. A marca da Canhoto tenta dizer exatamente o contrário. Por conta disso o alinhamento à direita nos leva à esquerda, paradoxalmente.

Um texto cuja espinha se encontra à direita faz com que a cada letra grafada se vá mais para a esquerda e é esse o conceito que eu tentei aplicar no desenho da Canhoto, como se a cada texto que nós escrevêssemos e publicássemos isso nos levaria mais à esquerda do pensamento (claro que não estamos falando aqui de uma esquerda velha, demagógica ou oportunista, mas sim de uma esquerda autêntica).

Assim portanto é a marca da editora: a palavra “canhoto” escrita em Trade Gothic Bold Condensed nº20 alinhada à direita, sendo que as 4 versões de quebra da palavra são utilizadas — ca/nho/to, ca/nhoto, canho/to e canhoto — e dão assim dinamicidade pro logo.

C O R E S

As cores institucionais da Canhoto são basicamente o preto e o branco puros, isto é, sem graduação de cinza e, eventualmente, o vermelho puro.

A P L I C A Ç Õ E S

A gama de aplicações da marca ainda é bastante limitada pelo fato da editora ainda se estruturar de maneira bastante informal e, por conta disso, as aplicações realizadas de fato foram somente alguns carimbos e dois adesivos: um redondo somente com a marca e outro horizontal contendo o endereço do nosso site.

No entanto, algumas aplicações especiais forem feitas de forma artesanal, como um cinzeiro, uma lanterna e um pipa, este último somente como projeto.

Ainda assim, elaboro aqui em forma de simulação uma papelaria possível da Canhoto para ilustrar as possibilidades de aplicação e também para ajudar a construir o que seria o universo estético da editora.

F U T U R O

A ideia que tínhamos quando decidimos não publicar o livro isoladamente, e sim fundar uma editora para o Não Foi Bem Assim, vingou. Após um ano do primeiro lançamento conseguimos elaborar a Sinistra e, um ano depois, publicamos a reedição do livro O Acre Existe. Nesse intervalo publicamos diversas coisas no nosso Medium e, mais importante que tudo isso, conseguimos criar um espaço livre para se falar e se pensar sobre literatura, esquerda e principalmente, sobre a vida. Isso é o mais importante. Liberdade não se cede.
F I C H A  T É C N I C A

EDITORA 
CANHOTO   

PROJETO DE MARCA 
PEDRO BOTTON   

CONSELHO EDITORIAL 
BRUNO ZANATTO, PEDRO BOTTON & RAFAEL ZANATTO   

FONTE 
TRADE GOTHIC   

ANO 
2014