T E X T O  &  i m a g e n s  P E D R O  B O T T O N
Superinteressante é uma revista brasileira de assuntos culturais e científicos, publicada mensalmente pela Editora Abril desde 1987, e eu fui convidado a colaborar com a arte durante 3 meses entre o final de 2017 e o início de 2018.
I n í c i o
Meu primeiro contato com o projeto gráfico da revista — desenvolvido em 2015 pelo Jorge Oliveira, do Estúdio Nono, e pelo  Fabrício Miranda, diretor de arte da Super — foi diagramando a seção Tech, um dupla de páginas apresentando as novidades na área da tecnologia em notas acompanhadas de uma imagem do produto da vez. 
Um exercício de diagramação editorial no seu estado puro: hierarquia de informações, acomodação de texto, escolha de imagens e organização cromática para oferecer ao leitor uma apreensão objetiva e prazerosa das traquitanas em questão.
Por conta do projeto gráfico oferecer rigor e consistência na medida certa eu gostei muito de diagramar esta seção nas três edições nas quais colaborei.

A segunda seção que eu participei foi o Teste, uma espécie de complemento ao Tech, em que uma categoria de produto é testada a fim de indicar pro leitor qual é a melhor escolha de acordo com a revista.
Esta seção tem uma especificidade interessante que é sempre produzir uma foto original dos produtos testados, ou seja, não utilizar as fotos oficiais de divulgação dos produtos. Estas páginas, portanto, me proporcionaram participar do processo de criação do conceito e produção fotográfica no meio editorial, áreas profissionalmente novas do design gráfico pra mim até então.
No Estúdio Cachalote, o parceiro Tomás Arthuzzi clicou e tratou as duas fotos nas edições em que assinei o design gráfico: na edição de janeiro, o produto testado era o computador all-in-one e a ideia foi representar cinco modelos amarrados com seus periféricos, “tudo numa coisa só”; na segunda, a Super testou somente o Xbox One X e a foto que fizemos faz referência ao monolito do 2001: Uma Odisseia no Espaço. Nas duas ocasiões eu trabalhei em parceria com o Fabrício Miranda.
C I Ê N C I A  D A S  A P O S T A S
A primeira matéria que eu fiz o projeto gráfico foi o artigo — escrito por Maurício Horta e editado por Bruno Garattoni — sobre como alguns cientistas já se deram muito bem ao se interessarem pela matemática, estatística e física dos jogos de azar ao longo da história.
A ideia foi ilustrar esses cientistas interagindo, pesquisando e alterando alguns elementos clássicos dos cassinos: cartas, roleta e loteria. Eu quis trabalhar com a estética da perspectiva isométrica e, durante a pesquisa, me chamou a atenção o traço do ilustrador paranaense Rodrigo Cersi pela maneira como ele lida com a ideia de várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e também possui uma grande criatividade em relação aos objetos de cena.
Assim, a matéria apresenta três grandes cenas com as ilustrações enchendo as páginas e o texto aplicado sobre elas em retângulos brancos para o texto corrido e pretos para os infográficos. A cor predominante das ilustrações possui um papel importante na arte da matéria: o roxo, verde e laranja de cada dupla dá identidade para cada parte enquanto o azul ciano procura dar unidade ao conjunto de cenas. Ao escolher essa paleta, em vez de um verde camurça e um vermelho naipe, tentei fazer com que a matéria não ficasse com aquela cara de cassino usual de projetos gráficos mais convencionais sobre o assunto.
F E B R E  A M A R E L A
Escrita e editada pelos queridos Felipe Germano e Tiago Jokura, respectivamente, a segunda matéria que diagramei foi sobre a volta da febre amarela, matéria essa que, não por acaso, já avisava em janeiro da epidemia que, nos meses seguintes, preocupou muita gente no país.
Para a arte desse alerta eu procurei uma estética bem distinta da matéria das apostas, dado que ambas saíram na mesma edição. Fui atrás de uma ilustração que remetesse à ilustração científica e, de certa forma, mais pictórica. Isto é, neste caso as ilustrações menos explicam o que está sendo contado e mais decoram a matéria.
Na hora de convidar um ilustrador eu lembrei de alguns desenhos interessantes de animais e bailarinos feitos pelo Leonardo Gomez que vi numa exposição na Praça das Artes. Entrei em contato e ele logo topou desenvolver a arte dessa matéria comigo.
No campo literal, são três desenhos realistas apresentando os três personagens envolvidos com a febre amarela: mosquito, macaco e ser humano; no campo abstrato, a ideia foi representar uma mancha amarela que começa com a picada do mosquito na primeira página, cresce contaminando a segunda dupla e domina quase completamente o último par de páginas da matéria, sendo que o final do texto, que fala sobre possíveis soluções para o alerta, “cura” novamente a página com uma pequena mancha branca.
Paralelamente, a área preta das duplas, que simbolicamente representa o desconhecimento sobre a febre amarela — que inclusive faz com que pessoas matem desnecessária e estupidamente macacos por achar que eles são transmissores da doença — diminui gradativamente a cada dupla de páginas, ou seja, enquanto o leitor lê a matéria e aprende mais sobre a febre.
P R A I A  R A D I O A T I V A
No mês seguinte, eu fiquei com a matéria — texto de Bruno Garattoni com reportagem de Aglisson Lopes e Natalia Bourguignon — sobre a praia de Guarapari em Vitória no Espírito Santo, cuja areia preta foi usada em diversos desenvolvimentos devido ao seu baixo porém útil grau de radioatividade. Navios dessa areia foram retirados da praia e enviados para os Estados Unidos sob anuência suspeita do governo de Getúlio Vargas nos anos 40.
A história inusitada reunindo elementos que não costumam andar juntos me levou a optar pela colagem como forma de ilustrar essas sobreposição de conceitos. A ilustradora catarinense Bárbara Siewert, que já havia trabalhado em outras matérias para a Super, me foi recomendada e, após entrar em contato com ela, começamos a trabalhar juntos na arte da matéria.
Assim, três duplas ilustradas com imagens de praias, bombas nucleares, aviões e escavadeiras numa escala de cores bem marcada, trazem o leitor para dentro dessa mistura.
N O  C É U  T E M  C H I L E
A última matéria que assinei o projeto gráfico nesse breve porém intenso período que eu passei na redação da Super foi um perfil da astrônoma chilena María Tereza Ruiz, escrito pela repórter da casa Ana Carolina Leonardi e editada pelo diretor de redação Alexandre Versignassi.
O perfil apresenta a pesquisa feita por Teresa Ruiz durante a ditadura de Pinochet sobre as anãs castanhas, corpos celestes de baixa luminosidade, pesquisa essa fundamental para entendermos e descobrirmos mais sobre os exoplanetas.
Para ilustrar essa matéria, eu tive o prazer de contar com as aquarelas do meu grande amigo e talentoso artista Bhakta Krpa, cujo traço eu imaginei que iria muito bem com o clima contemplativo do espaço sideral presente no perfil.
O escopo das ilustração foi, portanto, um abre na primeira dupla representando a astrônoma admirando um céu salpicado de estrelas escuras; um mapa aquarelado do Chile localizando os principais observatórios do país e; por fim, uma série de representações das diversas formações estelares presentes no universo.
Na última dupla essas aquarelas compõem um organograma do ciclo de vida das estrelas e das diferentes formas que este ciclo pode se dar. Esta estética de linhas finas do infográfico acabou dando o tom de todo o design da matéria que, em alguns momentos, cria uma sensação de profundidade e espacialidade, ou pelo menos foi a ideia que eu tentei passar. Com essa simplicidade também tentei dar o destaque devido às estrelas da matéria, com o perdão do trocadilho.
P L A Y L I S T
Na mesma edição em que saiu o perfil eu tive o prazer de desenhar a seção Playlist com o já elogiado Felipe Germano e com a também digna de elogios editora Karin Hueck. 
Esta seção de duas páginas, focada em cultura pop, sempre apresenta um infográfico de página inteira na ímpar, acompanhado de uma entrevista e recomendações na par, e dessa vez o assunto era como se dar bem no bolão do Oscar.
A partir de uma pesquisa apurada do Germano, nós desenvolvemos um gráfico de círculos em que o tamanho deles correspondia à probabilidade do prêmio ir para cada concorrente a partir do que já havia sido premiado nos sindicatos específicos de cada categoria, por exemplo: desde 2000, o prêmio do sindicato dos diretores coincidiu com o Oscar de melhor diretor 82% das vezes, o dos roteiristas 64% e por aí vai.
Os círculos receberam um tratamento semelhante aos que aparecem nos pôsteres dos filmes premiados e apresentam o prêmio em questão na parte superior e o favorito na parte inferior. Como infografia, é uma solução simples, mas achei uma bela página.
D I R E T O  D A  R E D A Ç Ã O
O tempo que passei na redação da Superinteressante na companhia de grandes designers e jornalistas foi uma aula de como se faz mês após mês uma revista séria, bonita e realmente atrativa para qualquer pessoa que saiba que conhecimento nunca é demais. 
A atenção com que a equipe de arte trata cada matéria e cada seção da revista é o que faz com que ela seja uma referência indiscutível no design editorial nacional e internacionalmente e isso é fruto do rigor e da criatividade incessante do Fabrício Miranda, da Mayra Fernandes, da Tainá Ceccato e da Sophia Fernandez, excelentes designers com os quais aprendi muito mesmo, além da Inara Pacheco, a quem agradeço muito a recomendação e a atenção comigo, e ao Anderson de Faria pela parceria nos fechamentos noite adentro.
O bom design editorial é diagramação precisa, mas também é escolher e pautar bem um ilustrador; saber qual foto a matéria precisa e fazer ela acontecer; propor destaques do texto e cobrar do jornalista informações que interessem ao leitor; e, ao final de tudo isso, entregar páginas que deem gosto de ler.
A Super faz tudo isso uma vez por mês há muito tempo e eu fico feliz por ter feito parte dessa história.
F I C H A  T É C N I C A
REVISTA SUPERINTERESSANTE   EDITORA ABRIL   DIRETOR DE REDAÇÃO ALEXANDRE VERSIGNASSI
DIRETOR DE ARTE FABRICIO MIRANDA   EDITORES BRUNO GARATTONI, KARIN HUECK E TIAGO JOKURA   EDITOR DIGITAL LUCAS PASQUAL   DESIGNERS MAYRA FERNANDES E TAINÁ CECCATO
REPÓRTERES
ANA CAROLINA LEONARDI, FELIPE GERMANO E PÂMELA CARBONARI
PRODUTOR GRÁFICO ANDERSON C.S. DE FARIA  
ESTAGIÁRIOS
BRUNO VAIANO, INGRID LUISA, SOPHIA FERNANDEZ E THIAGO AKIRA  
VÍDEO
THAÍS ZIMMER MARTINS   ANO 2017-2018

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